
"Stefan Zweig — Xeque-Mate" reúne os resultados de seminários conduzidos por Jacob Pinheiro Goldberg ao lado dos professores Silvio Saidemberg, Lamir Sagrado David e Marília Librandi Rocha, realizados na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. No centro, uma pergunta que a história brasileira preferiu silenciar: por que não houve autópsia, nem inquérito, na morte do casal Zweig, encontrado sem vida em Petrópolis, em fevereiro de 1942 — em pleno vigor do Estado Novo e da máquina nazista?
Goldberg não propõe uma contra-história, mas um abalo. Aplicando à morte de Zweig o que chama de uma hermenêutica da suspeita — a mesma escuta com que a psicanálise traz à tona o recalcado —, o autor reexamina indícios negligenciados: a única palavra em português numa carta escrita em alemão, a ausência de qualquer menção à esposa, os papéis com nomes riscados de Hitler e Goebbels, a sombra de "Berchtesgaden" pairando sobre o exilado. Cada detalhe reabre o ponto de interrogação que as pompas fúnebres oficiais tentaram fechar.
Mais do que uma tese criminal, este é um ato de reparação. Respeitar Zweig, escreve Goldberg, é suspeitar de assassinato — pois seu suicídio passou para a história como o de um derrotista, e não de um bravo. O livro é assim uma espécie de ressurreição pela escrita: o gesto de quem recolhe a roupa suja do passado para lavá-la no presente, e devolve ao maior dos humanistas exilados não o epitáfio do "pobre Zweig", mas a saudação que merece.
Sem autópsia, sem inquérito, uma ocorrência de menos de dez linhas: Goldberg lê na omissão das autoridades o desenho de um assassinato encoberto pela conveniência.
Como na psicanálise, interromper o discurso pronto para marcar o lugar de uma verdade não-dita — trazer Zweig de volta pela escuta dos indícios.
Contra o epílogo do "pobre Zweig", a recusa de aceitar o humanista como desertor: viva Zweig, salve Zweig, o homem que Hitler matou.
Respeitar Stefan Zweig é suspeitar de assassinato, pois seu suicídio passou para a história como o de um derrotista, e não de um bravo.
Não existe crime perfeito: somente crime mal investigado.
Rever a história. Re-iluminá-la. Lançar-lhe uma outra luz. Quem se volta para a própria sombra? Perguntou Stefan Zweig, no conto "Leporella", em 1939. Agora, outra voz pergunta: "quem matou Stefan Zweig?", encontrado morto, com sua mulher, em 1942. Essa pergunta precisa ser feita. Ela é legítima, decente, conseqüente.
Ele, como disse Goldberg, deixou todas as pistas: morreu jogando xadrez e sua última novela é o jogo de xadrez. Zweig lidava com sutilezas, não com arrogância. Foi-se como o candelabro enterrado, resistindo, e só aguardando um outro momento da história para reacender-se. Stefan nos aguarda.
Lidemos com o paradoxo: Stefan Zweig foi "suicidado" — e este dossiê é o inquérito que a história nunca abriu.